MARABÁ (PA) — O 1º Seminário de Memória e História Negra de Marabá, realizado no dia 1º, no Teatro Municipal Eduardo Abdelnor, promoveu debates sobre o papel da população negra na formação socioeconômica do Sudeste do Pará e a necessidade de combater o apagamento histórico e cultural.
O encontro reuniu educadores, gestores públicos, militantes do movimento negro e estudantes em uma programação marcada pelo resgate da ancestralidade e pela discussão sobre a presença e a contribuição da população negra na história de Marabá e da região.
Durante os painéis, os participantes destacaram que a invisibilidade da população negra nos registros históricos e nos espaços de poder está relacionada a processos históricos de exclusão. A socióloga Rose Bezerra, do Coletivo Consciência Negra em Movimento, ressaltou o papel do Estado na construção dessas desigualdades.
“O Estado não foi apenas omisso. O Estado atuou, fomentou e legalizou o racismo”, afirmou.
Um dos momentos de destaque foi o depoimento de Joelma Belém, mulher quilombola e titular da Diretoria Estadual de Igualdade Racial, da Secretaria de Igualdade Racial e Direitos Humanos do Pará. Primeira escritora quilombola do Estado reconhecida internacionalmente, ela falou sobre os desafios de ocupar espaços institucionais historicamente negados à população negra.
“Por mais que eu entenda que alguém precisa ser a primeira para abrir portas para as outras, ainda é muito preocupante que, após 138 anos [da abolição da escravidão], eu seja a primeira mulher preta quilombola a ocupar essa cadeira de Estado, pensada por nós”, declarou.
Joelma também chamou atenção para a necessidade de ampliar as políticas públicas de igualdade racial no Pará. Segundo ela, dos 144 municípios paraenses, apenas 15 possuem políticas de igualdade racial formalizadas, apesar de mais de 70% da população do estado ser negra.
PRESERVAÇÃO DA MEMÓRIA
Entre os encaminhamentos do seminário esteve a apresentação do plano de reestruturação museológica de Marabá, que pretende ampliar a forma como a memória da cidade é preservada e apresentada à população.

Gil Gomes, historiador do Museu Municipal Francisco Coelho, destacou que o espaço deve acompanhar as transformações e as demandas da sociedade. Entre as propostas está a construção colaborativa de um protocolo antirracista para garantir segurança e pertencimento aos profissionais e visitantes, além da criação de uma exposição de longa duração dedicada à história de Marabá sob uma perspectiva afro-indígena.
Também foram discutidas a implementação do letramento racial no estado, o fortalecimento das políticas de cotas e reserva de vagas, o financiamento contínuo de iniciativas voltadas à cultura negra e a inclusão das pautas quilombolas no orçamento público.
O seminário terminou com o compromisso de ampliar o debate e transformar as reflexões em ações concretas. Para os participantes, ruas, praças, órgãos e monumentos públicos precisam refletir a história e a diversidade de uma população majoritariamente negra e indígena.
O encontro consolidou, assim, a defesa de que o direito de contar a própria história deve ser reconhecido como parte de uma reparação histórica. A mensagem que marcou a programação foi: “Nada sobre nós, sem nós”.
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